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sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Bispo Dom Basílio do Nascimento, pr defende nova mentalidade

Há uma mentalidade providencialista nos timorenses que não se muda por decreto e que vai atrasando a evolução do país. É uma das justificações encontradas por D. Basílio do Nascimento, Bispo de Baucau, para o ritmo lento a que Timor-Leste se vai construindo, 10 anos depois do referendo que ditou o futuro da nação.

Em entrevista à Renascença, D. Basílio descreve os timorenses como “diletantes” e confessa que esperava uma evolução mais rápida em áreas como a saúde e a educação, mas lê sinais positivos nos movimentos políticos actuais.

Acredita que, agora, há condições para que Timor-Leste se vá tornando uma democracia estável.

Rádio Renascença (RR) - Completados dez anos desde que os timorenses escolheram a independência, que balanço faz do caminho feito até aqui?

D. Basílio do Nascimento (BN) - Eu respondia-lhe com uma comparação baseada na opinião de amigos de outros países – das ex-colónias portuguesas, chamemos-lhe assim – que, vendo a nossa realidade, dizem que em dez anos caminhamos muitíssimo mais do que alguns desses países que tiveram a independência há mais de 30. Estas comparações alegram-nos, evidentemente. Não nos resolvem os problemas, mas são um termo de comparação para que eu possa fazer uma ideia daquilo que é o Timor de há 10 anos e o Timor de hoje.

Os primeiros cinco anos foram difíceis, mas, hoje em dia, penso que o país está estabilizado. A nível de segurança, creio que estamos muito melhor do que há dez anos. A nível de outras infra-estruturas, não tanto. Foi-se melhorando, evidentemente, a nível de educação, a nível de saúde, mas eu esperava que andasse um bocado mais depressa do que aquilo que assistimos hoje. Mas creio que é normal nos nascimentos destes países assim. Só desejo que os nossos governantes aproveitem este tempo de paz para começar a lançar estruturas para o futuro, de modo a que o país se possa desenvolver mais depressa do que até agora.

RR - Há cada vez mais vozes a defender uma retirada das tropas estrangeiras. Acha que já há condições para a polícia timorense tomar conta da segurança nacional?

BN - Penso que sim. E, por aquilo que o representante das Nações Unidas, que está a terminar o mandato, me explicou há dias, vai haver uma retirada das forças policiais, mas não o vão fazer tão repentinamente como fizeram em 2004 ou 2005. O certo é que, de há dois anos a esta parte, foi sendo feita, paulatinamente, a passagem da responsabilidade da coordenação da segurança da polícia internacional para as forças locais. Pelo menos na área da minha diocese [de Baucau], espera-se que, até ao final de 2010, os quatro distritos sejam comandados somente por responsáveis timorenses.

RR - Já o ouvimos afirmar que os timorenses não estavam suficientemente empenhados em construir a sua nação. O que é que queria dizer exactamente?

BN - Essa é uma mentalidade que, se calhar, vai demorar tempo a passar. Eu costumo brincar connosco, dizendo que quem tem culpa de tudo isto é o próprio Deus, que dotou esta terra de tudo e fez com que os habitantes fossem um bocado preguiçosos. Não direi preguiçosos… diletantes. Simplesmente, nós temos uma mentalidade muito providencialista: no princípio era Deus, depois vieram os portugueses, depois vieram os indonésios, vieram as Nações Unidas, agora o petróleo… É a nova providência e pensa-se que o petróleo vai resolver os problemas todos. As pessoas julgam que não é preciso trabalhar para se conseguir os objectivos que se pretendem. É a realidade e não se pode mudar as mentalidades por decreto. Esperemos que a nova geração que aí vem seja formada de uma outra maneira, tenha consciência da realidade, mas, sem dúvida nenhuma, vai levar tempo.

RR - Quando o país escolheu a independência, em 1999, D. Basílio presenciou toda a violência que assolou o país. Que marcas ficaram nos timorenses?

BN - Por paradoxal que pareça, eu penso que 1999 desapareceu bastante depressa da memória das pessoas. Julgo que o facto de, entretanto, a liberdade ter vindo quase imediatamente contribuiu para que as marcas não fossem assim tão profundas. Neste momento, vejo que a população está mais marcada por aquilo que aconteceu em 1975 [a invasão de Timor pela Indonésia] e, sobretudo, por aquilo que aconteceu durante a resistência... Porque, entre nós seja dito… Acusa-se a Indonésia de muita coisa, mas nós os timorenses não estamos isentos de muito sofrimento infligido ao próprio povo.

RR - Como é que se compreende, então, que a 7 de Dezembro ainda se faça feriado para comemorar o dia em que a Indonésia invadiu Timor-Leste?

BN - Não sei se é para perpetuar uma memória, se é um pretexto para se ter um feriado. Julgo que nós somos um dos países – não sei se do mundo, mas pelo menos aqui da Ásia – que mais feriados tem. Mas também ainda estamos nesta fase em que se pensa que temos de agradar a gregos e a troianos. Espero que um dia se faça a revisão da Constituição e as coisas sejam um bocado mais orientadas, mas ainda estamos a viver os resquícios de muita coisa. Embora esse contentamento generalizado, em meu entender, está a prejudicar um bocado a vida do país. Mas essas já não são contas do meu rosário…

RR - Nos últimos anos, tem havido vários períodos conturbados em termos políticos. Acha possível que a qualquer momento haja nova explosão?

BN - Não, eu acho que o povo, neste momento, está muito desperto e consciente das coisas e, por estranho que pareça, julgo que os acontecimentos de 2008 [os atentados contra a vida do presidente José Ramos Horta e do primeiro-ministro Xanana Gusmão] criaram uma consciência muito grande, muito profunda no povo, dizendo a toda a gente que podemos brincar, mas não
teremos uma segunda oportunidade.

RR - Ainda no início do mês, a Fretilin [o maior partido timorense, agora na oposição] organizou uma marcha pelas ruas de Díli, reunindo milhares de militantes em protesto contra as políticas do Governo. Isto é preocupante ou um bom sinal?

BN - A Fretilin sente-se um bocado perdida, porque idealizou um tipo de existência para ela própria, quis considerar-se como a única força da nação e, neste momento, vê que é uma das forças. Neste momento, a Fretilin está a fazer um papel muito importante na vida do país, a assumir a oposição com muita convicção, com muita força também e eu acho que isso é sadio para a democracia de um país que começa. E também para eles era uma aprendizagem – o poder não está somente naqueles que administram o país, mas aqueles que estão na oposição também podem dar um contributo muitíssimo grande para o benefício do país.

Catarina Santos, em Díli

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